A cidade e o silêncio

Fernando Pernes

O espectáculo urbano voltou à arte contemporânea, após as décadas de radicalismo abstracto, geométrico ou expressionista. Assim aconteceu desde o fenómeno «pop». Assim sucede nesta pintura de Maluda, diferentemente gerada num sistemático decantamento de experiências cezannianas que lentamente lhe determinaram específica originalidade. Figurativa, a pintura de Maluda absorveu da essencialidade geométrica, o primado da ordenação plástica. Do abstraccionismo, reteve a exigência de um discurso anti discritivo. A essência construtiva, o ascetismo lírico, eis pois duas eloquentes constantes nos quadros de Maluda, organizados numa depuração do naturalismo e da efusão sentimental: uma busca da clareza formal a que se conjuga o culto da claridade cromática.

Nítidas e claras são pois as composições de Maluda, assumindo, entre ambos os vectores, uma óbvia relação arquitectural como sugestiva qualidade de luz solar que as torna paisagens reconhecíveis numa perspectiva de referência meridional. Nelas, há puros ritmos de formas urbanas a destacarem se na fixidez de cores frias. Cores que podem reproduzir o vermelho de telhados, o branco ou o cinzento de fachadas, o azul do firmamento ou de águas, feitos espelhos de certa densidade sensual atribuível ao «habitat» português.

Mas aí, também nesses quadros de Maluda, a procura do essencial e do universal, tende a varrer o anedótico e o descritivo, qualquer ruído ou agitação perturbadora, até à anulação de trepidações atmosféricas. O resto, o que permanece além da pormenorização, é a visão universalizadora. E o que fica, para lá do narrativo, será então o silêncio.
Paisagens de silêncio, eis de facto como nos aparecem os quadros de Maluda, mundo do evidente e do espectral, desassombrado e insólito, significando se para melhor nos significar, a nós, habitantes possíveis destas ruas sem tráfego, destes blocos mudos e cegos que são as casas do homem pousadas entre faixas congeladas de luz evocativa do céu ou do mar. E que, anti naturalista, esta pintura de Maluda surge sobretudo poética de progressiva congelação da natureza. Daí talvez o seu eco de ressonância metafísica, tanto mais nos surpreendendo quanto ainda evidenciando a persistência de um próximo e familiar, conotável com os sítios referidos nos quadros. Com sítios que trazem memórias ou visões lisboetas, de terras alentejanas ou algarvias, simultaneamente reconhecíveis numa essencialidade cromática ou topográfica, quanto distanciados na permanência do mesmo olhar decantante do pormenor individualizador e agindo por exigências depuradoras.

De tal modo, com Maluda, a linguagem geométrica dos arquétipos plásticos surge processo de uma dramaticidade tensa, exigente da nudez na vida oculta de todos nós. Consigo, o empenho no despojamento formal redunda na desocultação de uma condição existencial progressivamente mostrando a cidade, o homem português num mundo tão céptico como expresso numa intensão universalizante a repudiar o típico e o pitoresco.

Decerto a ambição do essencial e do universal foi a determinante máxima de um processo da arte moderna que Maluda soube absorver na receptividade ao que a rodeia, aos horizontes do seu quotidiano. Agora, tal sentido do próximo despoja se de verosimilhanças tranquilizantes: abre se para peregrinações ao invisível e ao alarme que o rigor estruturante adensa, transformando os locais vividos em espelhos de uma vivência de solidão onde nos reconhecemos. Aí, a pintura de Maluda encontra plena justificação de modernidade estética e de actualidade sociológica. Retratos da terra que habitamos, os seus quadros retratam nos a nossa verdade que ocultamos. Aí, também as suas paisagens passam da representação à relação do mistério, subjacente no desnudar das aparências festivas. A nudez plástica das paisagens de Maluda é imagem desolcultada de algo que as palavras não sabem e onde a sua pintura reencontra a sabedoria imemorial das autênticas realizações artísticas. O ser moderno é sempre a procura dessa antiquíssima eloquência.

1978
Catálogo da Exposição Individual na Galeria Dinastia, no Porto, em 1978

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"Os quadros de Maluda são um hino, um louvor à vida, ou seja à construção do abrigo humano". Maria Helena Vieira da Silva