Cantigas de Amigos

José Carlos Ary dos Santos

Era uma vez um livro muito bonito, que cheirava muito bem. Umas vezes a flores, outras vezes a urtigas. Mas a urtigas sadias. Tinha sido feito pela Natália Correia que o desenterrara de alfarrábios muito, muito velhos, com mãos de chama e de poeta. Escusado será, pois, dizer que o livro era de poemas. Eis senão quando, uma bela noite em casa da Amália, os tais poemas sairam das páginas e ganharam voz. Pareciam ervas dançando no meio da sala. O Fontes Rocha foi-os apanhando um a um e fez com eles um feixe de música. O Carlos, o Pedro e o Joel, ajudavam muito. E a Amália deu-lhes um nome como só ela sabe: Cantigas de Amigos. O resto? O resto foi apenas convivio e entendimento perfeitos. Às vezes, pela meia-noite, os poemas tinham fome e comiam sopa de coentros e arroz de bacalhau. O Rui e o João também apareceram e ficaram calados que nem ratos ao pé do Ribeiro, que é um mágico que sabe fazer música com luzes, enquanto este regia a orquestra. Depois, chegou a bruxa Maluda (que por sinal é bem bonita) a cavalo numa vassoura, com um pincel e uma tesoura. E zás, pôs-nos a todos na Idade Média. Parece uma história para meninos, é certo. Mas não é verdade que, no Natal, todos gostamos de nos sentirmos um pouco mais crianças? Ou anjos com caracóis de fios de ovos, como diz a Natália…

Contra-capa do álbum “Cantigas de Amigos” (Natália Correia, Amália Rodrigues e José Carlos Ary dos Santos)
Lisboa, 1971

Comments are closed.

"Os quadros de Maluda são um hino, um louvor à vida, ou seja à construção do abrigo humano". Maria Helena Vieira da Silva