Dos retratos às “janelas suficientes”

Prefácio de José-Augusto França para o livro “Maluda”

… Para Maluda o mais acertado adjectivo é “independente”. Independente do mundo e da fortuna era ela – do mundo das artes e das suas tricas, do da fortuna delas, com seus truques. Maluda não tinha “marchand” nem fazia exposições comerciais, e só na Fundação Gulbenkian, por obrigação de bolseira, em 1973 e 1981, ou também na Fundação, em Paris, em 1988. A colectivas não comparecia e a prémios também não. E, porém, vivia da pintura como poucos artistas viviam no Portugal de então. É que Maluda (com uma secretária sua amiga) ia registando encomendas para os quadros que pintava e, por serem poucos ao ano, no perfeccionismo da sua pintura, iam pondo coleccionadores à espera, sempre por conhecimento uns dos outros. E muitos deles, até aos anos 80, em que quase abandonou tal prática, eram de retratos.

O retrato é género de má fama por causa de dois famosos artistas do seu tempo, um que “esmaltava damas” e outro que “merdinava Excelências”, e desde Almada e Soares, Manta, Eloy e Botelho, não tinha ele consideração crítica, por práticas pouco decentes. O resultado vê-se hoje em dia, quando, na galeria dos reitores da Universidade Nova de Lisboa, o melhor retrato (de Alfredo de Sousa) é da Maluda (e creio que em Coimbra também), ou na da Assembleia da República, o único bom (Victor Crespo) é da Maluda, igualmente muito sendo de lamentar que ela não tivesse recebido encomenda para a galeria presidencial de Belém. Maluda pintava quem pintava ou queria pintar, com valores plásticos seguros e expressão psicológica entendida, mesmo que solenizada. Creio que só aceitou pintar um retrato por fotografia, do então falecido Aquilino Ribeiro – e pediu-me que a ajudasse a pôr-lhe a expressão que não soubera, disso resultando que, num canto de tertúlia desaparecida na Bertrand, tivesse tido presença o grande escritor.

Pintando retratos ou as suas paisagens “de régua e esquadro”, Maluda trabalhava diariamente como um operário – cedo levantada, de manhã, e até pelas seis da tarde. Após o que o serão era dela e dos amigos, de conversa, whisky e noitadas aqui ou ali, com fados de preferência (e em casa da Amália, por amizade comum). Quando a conheci, em Paris, em 1963, as noites estavam a ser na famigerada Régine, em que Maluda era convidada permanente. Não eram essas as minhas preferências parisienses e, antes então, os bailes de Robinson (ó populismo de Carné!) em que ela não comungava… Mas víamo-nos de dia, e íamos de sítio em sítio, até aos fins-de-semana em casa-atelier do Vasco Costa, na Dauberie – quando ela nos batia, aos dois (e aos três, com o António Dacosta) ao ping pong, em que era terrível…

Se um pintor se conhece pelas obras que faz, ele se reconhece também pelas que vê – e nunca observei ninguém mais receptivo, em museus, exposições ou ateliers de pintores a que a levava, quisesse ou não a pintura que via, mas dela tirando a lição profissional que lhe cabia. Dos muitos nomes que aqui podiam caber, está o de Vieira da Silva, que lhe apreciava o labor tão diferente do seu e por isso lhe prefaciou um livro publicado na Suíça em 1981. Maluda aprendera, como pudera, em Lourenço Marques, viera para Lisboa e teve lições de Roberto de Araújo, pintor frustrado pela sua própria inteligência, e depois em Paris, de Jean Aujaume, com bom atelier profissional também. Uma autodidacta de grande capacidade de aprender, assim era ela, entendendo perfeitamente, isto é, firmemente, o que lhe convinha, sem atracções de modas ou sucessos que lhe fossem alheios ao gosto e à consciência.

Assim no retrato, nunca à moda de ninguém, assim nas paisagens lisas de cor, sem atmosfera que lhes perturbasse as linhas – “porque geometrizar é a mais sensível das operações em que intervém uma permanente invenção, controlada e controlante” (escrevi eu em 1973), e podia acrescentar que a “atmosfera” é uma convenção do impressionismo, que não é obrigatória… Assim também, se acrescentaria, para as janelas que, em cerca de 1980, começou a pintar, a essa pintura pondo fim quando dela se fartou – com muitos coleccionadores à espera. Ali (escrevi também, em 1981), “através das vidraças, como through the looking glass, o mundo de Maluda torna-se o mundo de Alice”, dentro e fora do mistério das fachadas. Melhor do que eu, disse, então o Alexandre O’Neill, amigo de ambos, em soneto:

“Esta janela é uma finta, é uma jogada
no xadrez de quem a pinta e assina”…

…Maluda acreditava na amizade, como eu acredito, e foi certamente por isso que, indo morrer, me pediu que criasse um prémio para jovens pintores, para que deixou fundos. E concordou que o Fernando Azevedo nisso me ajudasse, com a Sociedade Nacional de Belas Artes, amigo dela também, que tão bem sabia ver a sua pintura. O “Prémio Maluda” foi, assim, durante quatro anos, em 1999 e até 2002, uma generosa memória da pintora – último aceno dela a uma vida artística que, de bem, sempre, com a vida que queria, e a arte que fazia, preferiu marginar. Fazendo ela, a dita vida artística nacional, muito mal em não lhe entender a oferta plástica (e poética) que lhe trazia. No mistério das suas janelas que, a par do O’Neill, um certo MacPherson cantou:

“De Lisboa as janelas suficientes
brilham do Sol que nelas sempre dá,
escondendo as casas por trás ausentes
todas as casas que por trás não há

que cada uma delas “dá e mente / o retrato que lá pôs toda a gente”.

Ou “no frio lirismo de uma paisagem tão fisicamente inventada que só por dentro se entende também”. Da sua janela da Rua das Praças, Maluda viu estas paisagens, nitidamente, até morrer.

Março de 2008

José-Augusto França

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"Os quadros de Maluda são um hino, um louvor à vida, ou seja à construção do abrigo humano". Maria Helena Vieira da Silva