Fernando Raposo de Magalhães escreveu no aniversário de Maluda

Subia-se ao 4º andar, no elevador da esquerda, às 2ªs, 4ªs e sextas, e no da direita nos restantes dias. Era um bom presságio e, realmente, ali não havia complexos de esquerda nem desvios à direita. Não quer dizer que não se discutisse política, mas nunca se ficava a perceber qual a cor que ali reinava, isto pela simples razão que não reinava nenhuma.Do vasto círculo de amigos que ali demandava, quase todos os dias, ao fim da tarde, esperava-se que fossem medianamente cultos, mas acima de tudo exigia-se que fossem bons conversadores, bem dispostos e, se possível, veneradores de “Baco”.Ninguém lhes perguntava donde vinham, nem para onde iam, se tinham mulher ou marido ou se, pelo contrário, eram solteiros, desquitados ou desinteressados.
Os meios de fortuna, as opções partidárias ou as preferências amorosas, também não eram factores importantes.

Ao neófito, tudo isto era evidente, passada a primeira hora de convívio, e se os coitados não tinham o mínimo sentido de humor, rapidamente se tresmalhavam, depois de sentir as primeiras picardias.

Estava-se uma hora ou uma noite, porque havia com frequência, um núcleo duro que, bebendo o seu copo e debicando petiscos, ia ficando. Havia até alguns (nos quais eu me incluo) que já não tendo força ou tino para dali saírem, se deixavam adormecer, alongados no sofá amarelo, até que a claridade os acordasse na manhã seguinte. Ao abrir os olhos, com a cabeça pesada e a língua de pau, logo descobríamos a cafeteira do café, o pãozinho do dia e a manteiga fresca. Até, caso raro a esta hora, quando a dona da casa já ali não se encontrava, uma nota escrita lamentava a ausência e desejava um bom dia.

Uma das distracções predilectas, quando a conversa começava a esmorecer, era a música, pois, neste grupo, havia quem tocasse bem e as vozes, algumas famosas, não se faziam rogadas para entrar em cena. Os melhores cantavam pela noite fora e, os menos dotados, ouviam ou protestavam, por só as estrelas poderem brilhar.

Tenho saudades de ouvir o Mané ou “a do Carmo”, e tantos outros que até às vezes cantavam melhor, mas não eram compreendidos, como o Schmidt ou o “Tenor Maligno”.

Tertúlia melhor, nunca se inventou e melhor companhia nunca haverá. Só que o tempo é tão ligeiro, que os dias passaram céleres e os anos também. Alguns dos mais queridos já cá não estão. Ela também partiu, e o seu testamento é esta saudade imensa que nos invade.

Dizem que também pintava…

Lisboa, 15 de Novembro de 2005

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"Os quadros de Maluda são um hino, um louvor à vida, ou seja à construção do abrigo humano". Maria Helena Vieira da Silva