Geometria de Maluda: Uma alma fascinada pelas formas

Entrevista de Hugo Beja, publicada na revista Galeria de Arte (Nº 5, Ano 2, Junho/Agosto de 1996)

Do Universal – Podemos sustentar que o Universo é uma incomensurável rede cristalina, logo, um contínuo geometricamente arranjado. Pois, de facto, o espaço infinito abriga átomos e partículas subatómicas que se relacionam, congregam, interagem, estabelecendo afinidades, co valências, ligações, tensões, distanciamentos e proximidades, refazendo mundos dentro duma certa  arquitectónica em que a matéria (ou a matéria/espírito) se comporta e organiza de acordo com leis que ficam muito além das formulações teóricas conhecidas.

Geometria de Maluda
Uma alma fascinada pelas formas

Será então pertinente dizer que o Universo – ao mesmo tempo conservador e auto-transformador – contém um ADN matricial cujas peças, repetitivas, não impedem que a estrutura geral e o rigor filético fundamental, que criam a unidade e diversidade da Vida, se enriqueçam. Esta teleologia, que associo aos conceitos de ontogénese (J. Monod) e de cosmogénese (P.T. Chardin), não será estranha ao sentido e conteúdo de algumas das propostas “geometrizantes” que podemos encontrar na Arte contemporânea.

Do geométrico

Simetria, simplificação formal, esquematização, etc, são atributos relevantes do processo geométrico. Segundo certos autores, esta tendência terá como recurso consciente a partir das antiguidades Egípcia e Mesopotâmica. Surgia da necessidade de compatibilizar o carácter fugaz e complexo da actividade humana   que crescia em planos, motivos e categorias simbólicas – com a representação simples e durável dessa actividade.
Quando o cubismo se insinuava no estilo de alguns quadros de Cézanne, os elementos simplificados que o pintor fixava nas suas composições conferiam o poder da síntese e da essencialidade. Mais tarde, e até aos nossos dias, a componente geométrica é encontrada numa larga panóplia de criadores pictóricos: Robert Delaunay, Mondrian, Malevich, Picasso, Arp, Ben Nicholson, Egil Jacobsen, Vieira da Silva, Vasarely, Kidner, Noland, e tantos outros. Tais artistas representam várias correntes da Arte Moderna, desde o Raionismo ao Suprematismo, desde os Cubismos às Abstrações geométicas e à Op-arte.

De Maluda

Por certo, e de algum modo, esta carga estética (histórica) ocupará um espaço referencial na consciência cultural de Maluda, mas a artista não se reconhece como herdeira de testamentos exógenos. Assume a pintura que faz como afirmação sui generis duma autonomia, “sem sofrer influências de ninguém”. “É melhor defender uma linguagem pessoal do que seguir escolas; a linguagem pessoal, não histérica, só minha, é o meu percurso, sem ser um caminho de obediência”.
José Augusto França, lúcido exegeta, escreveu a propósito da obra de Maluda que “geometrizar é a mais sensível das operações em que intervem uma permanente invenção (…)”. Por mim, não tenciono reduzir a imagem dessa obra a um postulado, ou visão axiomática. Prefiro entendê la num contexto fenomenológico que se prende com a aventura viva da artista face a Maluda pessoa. Porque, falando nós informalmente, lhe auscultei um grande testemunho auto analítico, que penso ser bom conhecer para melhor avaliar donde emergem a sua pintura, os seus temas, o seu modo de ver o mundo.
Assim, gostaríamos de caminhar um pouco sobre a vertente humana e existencial da artista, ainda que esperemos colocar lhe algumas questões do foro especificamente plástico.

Hugo Beja – Sempre considerei que à visão que se possa ter de um artista, como tal, faltará sempre a imagem complementar da pessoa que está implícita em toda a entrega em Arte. Não fosse isto, e como valorizaríamos Van Gogh, Gaugin, Soutine, Kiefer, Frida Kahlo, só para citar alguns? Pergunto então: Quem é Maluda, perante si mesma?
Maluda – Corpo, espírito e alma. Um corpo sujeito à usura do tempo, uma alma fascinada pelas formas e um espírito imerso na luz intemporal.

H.B. – O que lhe tem sido mais marcante na Aventura de Existir?
M. – Vim do Oriente, onde nasce a luz; passei por África, onde aprendi a amar a vida; cheguei à Europa, onde estudei pintura na cidade das luzes; depois fixei me em Lisboa. Gradualmente refiz o percurso labiríntico em direcção à luz. Cada passo revela, à sua maneira, esse jogo de sombras e de luz que é a vida e a morte, a sabedoria e a ignorância. Eu pinto. É uma aventura que não troco por nenhuma outra.

H.B. – Sabemos Moçambique muito ligado à sua Vida. Que significado tem África no desenvolvimento da sua mensagem estética?
M. – Vivi em África num tempo em que talvez tivesse absorvido subconscientemente a linearidade das suas expressões artísticas. Natural é que elas aflorem, também inconscientemente, na minha forma de tratar outros mundos.

H.B. – Em que consiste a sua relação com a Terra, a Natureza, os Seres? Na sua pintura paisagística o ser humano não está senão implícito. Porquê?
M. – Cada ser humano é tudo isso, terra, natureza sentida e contacto com os outros. Eu não fujo à regra. As minhas paisagens são composições de uma exigência quase abstracta em que a figura humana seria extemporânea e até dissonante.

H.B. – A Maluda é tida como uma pessoa “simpática”, “convivente”, “comunicante”. Reconhece se como tal?
M. – Depois de um dia de trabalho, solitariamente vivido, nada mais natural que conviver e comunicar.

H.B. – Vejo muitas vezes a Maluda associada a actos mediáticos de natureza heterogénia (televisão, etc…). Isso corresponde ao seu gosto pelo diálogo? O que é que os seus amigos “conversadores” – músicos, cantores, poetas – pensam do seu trabalho?
M. – Eu não procuro a televisão, a rádio ou qualquer outro dos media mas, ao contrário, sou constantemente solicitada, em consequência da minha profissão, a depor sobre vários assuntos que podem até transcender a própria pintura. Cada intervenção atrai nova solicitação e cria se, “malgré moi”, uma imagem de permanência em todos os acontecimentos.

H.B. – Acha importante que a Arte seja teorizada que sobre ela escrevem?
M. - A Arte é uma dimensão de infinitas virtualidades. Pode se escrever, teorizar, tentar até impor dogmas, mas esse mundo vivo e palpitante não se deixa acorrentar, nem formatar, nem conformar. É uma torrente de curso imprevisível.

H.B. – O que pensa da consciência estética portuguesa? As decisões político culturais reflectem essa consciência?
M. – Penso que se submete aos valores em moda centros que supostamente ditam as regras. É um factor que pode impor condicionantes a uma expressão verdadeiramente original.

H.B. – De que modo se sente, como participante no todo social e cultural do nosso País?
M. - Defendo a minha autonomia, crio em liberdade, o que é uma aventura. Sinto-me recompensada com o reconhecimento que me é dado.

H.B. – Acredita na Arte como instrumento de melhoria do estofo afectivo do Homem, da comunicação com o essencial da vida, um pouco como Malraux pretendia?
M. – Acredito que a arte tem potencialidades para despertar emoções e provocar momentâneos estados de exaltação. Porém, a salvação é individual, cada ser se há-de regenerar pela forma que escolher.

H.B. – Considera a Matéria um fascínio ou uma fatalidade?
M. – É uma fascinante fatalidade, é a luz congelada momentaneamente num campo de forças.

H.B. – O que lhe ocorre dizer sobre Cultura Ocidental, por extensão a outras culturas que compõem a grande Cultura Humana?
M. – A cultura ocidental vive espartilhada pela visão intelectualizada do mundo. O Universo é uma dimensão misteriosa, fulgurante de emoções; e, geralmente, a cultura ocidental reduz o homem à condição de “prisioneiro” que olha, da sua caverna, o mundo e toma as sombras por realidade.

H.B. – O que pensa da era cibernética, do experimentalismo conceptual, da busca automatista nas expressões criativas?
M. – A torrente artística admite que nela naveguem todas as experiências, todas as tentativas. Algumas sossobram, outras formam ilhas donde emergem faróis…

H.B. – Qual considera ser a verdadeira importância prática da Arte (sua inserção no quotidiano das cidades, dos lares, das pessoas comuns?).
M. – A arte influencia decisivamente, no bom ou no mau sentido, o quotidiano. Veja se o impacto do cinema, da pintura e da música, por exemplo. A arte é a vida, os homens são os actores num palco gigantesco. Alguns fazem-no melhor, e são considerados por isso.

H.B. – Há na sua obra uma prevalência de paisagem (urbana, ou outra): depois de Carlos Botelho, você deita um olhar apaixonado sobre Lisboa… Que significam Lisboa e Portugal no seu processo pictórico?
M. – Lisboa é a minha circunstância acidental. A minha circunstância essencial é a pintura. Podia não pintar Lisboa, o que não podia era deixar de pintar.

H.B. – Fala se muito na singularidade das suas “janelas”. Não creio que elas sejam apenas exibição formal das virtualidades do seu talento. Há uma interioridade nas suas janelas?
M. - A tentação das janelas é a tentação de resolver a dualidade num esquema lúdico. É, no fundo, transgredir a norma de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, quando na imaginação eles se podem infinitamente multiplicar. Ocorre me a dualidade do tempo, na representação do deus Janos, que deu curiosamente origem etimológica à palavra janela…

H.B. – Vi há tempos um retrato que pintou do Carlos Zell. Fale nos da sua faceta retratística.
M. – Muito esporadicamente aceito pintar um retrato. Talvez a alternância entre paisagens depuradas e a representação do ser humano estabeleça, no meu inconsciente, um certo equilíbrio…

H.B. – Quando viaja, quando se encontra perante outro Meio e outra Cultura, como se sente? Acha que a sua obra se integra bem na Arte que globalmente está acontecendo?
M. - Sinto me emocionada. Houve quem dissesse que a minha forma sintética de expressão podia ser uma conciliação entre o grande público e as propostas mais vanguardistas.

H.B. – A Arte Europeia deste século foi (é) certamente uma referência importante para si. Colheu influências dentro desse universo de estilos, mensagens e teorias?
M. – A minha pintura gera se e brota do meu universo interior de uma forma independente que se impõe à minha própria vontade.

H.B. – Na sua trajectória internacional estabeleceu, por certo, belos e fecundos diálogos com gente ligada ao Pensamento e à Criação contemporâneos. Conte nos algum facto mais relevante dessa sua experiência.
M. - Os diálogos mais marcantes não ocorreram “no estrangeiro” nem com estrelas do firmamento artístico ou com génios do pensamento mas, antes, com os amigos íntimos.

H.B. – Acha que a situação humana pesa hoje mais pela sua face bela, ou pelos dramas que conhecemos e se reflectem abundantemente na linguagem artística?
M. – A condição humana é feita de dor e de alegria, que são aspectos da celebração da vida e do drama da evolução da consciência.

H.B. – O que é para si o “estado de arte”? E o sentido da Paz?
M. – São o estado de graça.

Nota: Galeria de Arte era uma revista trimestral editada pelo Centro Português de Serigrafia e dirigida por António Prates.

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"Os quadros de Maluda são um hino, um louvor à vida, ou seja à construção do abrigo humano". Maria Helena Vieira da Silva