Maluda em Confidências de Mulheres

Depoimento de Maluda para o livro Confidências de Mulheres, Anos 50-60, de Cecília Barreira (Círculo de Leitores, Lisboa, 1993 / ISBN: 972-42-0642-4)


1. Os anos 50 coincidiram com a sua infância, adolescência ou idade adulta?

Os anos 50 foram adolescência e idade adulta. O fim do liceu e o princípio de uma vida em que se optava, em Lourenço Marques, entre arranjar um emprego ou vir a Portugal fazer um curso superior, já que não havia universidade. Fiz a opção menos ambiciosa e por lá fiquei.
Só mais tarde, em 1961, um grupo de amigos entusiastas dos bonecos que eu já desenhava incentivou-me a levá-los mais a sério oferecendo-me todo o material necessário à pintura: tintas, pincéis, cavalete, etc. A partir daí comecei a pintar, timidamente, e nessa data assinei os meus primeiros quadros a óleo. Aluguei um pequeno atelier, onde trabalhava depois do emprego, e surgiram as primeiras exposições, as primeiras críticas abonatórias.
Em 1963 pedi uma bolsa de estudo à Fundação Gulbenkian e creio que fui a primeira bolseira vinda do Ultramar. Em Lisboa trabalhei intensamente com o Prof. Roberto de Araújo durante três meses e segui para Paris onde vivi quatro anos.
Frequentei com assiduidade a Academia de la Grande Chaumière, por coincidência a mesma por onde passaram Vieira da Silva e Arpad Szenes. Nos primeiros tempos preocupei-me mais com a informação, pois tinha transitado de um ambiente não muito informado em pintura para uma cidade onde tudo acontecia, desde as escolas já existentes como as que proliferavam nos anos 60. Fazia os trabalhos que a Academia impunha e que a Fundação exigia como complemento dos meus relatórios. Passei a trabalhar mais quando arranjei uma casa-atelier e deixei o hotel, onde não era permitido pintar. Nessa altura foi importante ter conhecido o José-Augusto França que me orientou bastante no mundo da pintura e que me apresentou muitos artistas que conhecia, por já ter vivido em Paris e por lá ir com muita frequência.

2. Qual a profissão dos seus pais?
O meu pai era militar. Fez comissões em Goa e em Moçambique. Na sua juventude em Lisboa fez teatro amador e tocava bem guitarra. A minha mãe não trabalhava senão em casa.

3. Era católica? Ia à missa? Ou professava outra religião? Era agnóstica?
A minha mãe é católica e extremamente praticante. O meu pai era menos. Em criança ia à missa mas desde muito cedo passei a ter um problema que eu aliás defino de uma forma humilde: não tenho a graça de ser crente. Mas tenho o maior respeito e não sou irreverente nem com a religião nem com a mãe.

4. Estudava ou trabalhava na vida doméstica nesses anos 50? Como ocupava o seu tempo, enfim?
Fiz o liceu e trabalhei sucessivamente em quatro empresas comerciais. Com um rápido curso de dactilografia e o meu jeito para línguas não tive dificuldade em ascender a secretária de direcção. Aceitava a profissão, embora não correspondesse propriamente a uma ambição, e quando o trabalho não apertava muito, dava por mim a fazer desenhos.
Do liceu tenho a memória de um descontentamento generalizado porque tínhamos que cumprir os períodos escolares de Portugal, o que correspondia a aulas com quarenta graus de temperatura e férias no Inverno, durante a chamada época do cacimbo. Naquelas idades e com tantas praias bonitas à disposição interrogávamo-nos sobre a justiça daquela imposição. O liceu chamava-se Salazar e por lá passaram, no meu tempo, alunos que mais tarde se evidenciaram, como o Rui Guerra, os manos Silva Graça, o Otelo, etc.

5. Que leituras fazia? Que revistas e que livros?
Sempre li bastante mas procurava uma leitura avançada para a idade e de difícil digestão, devo confessar. Lia Kierkegaard, Nietzsche, Bacon. Preferia os filósofos aos romancistas, o que mais tarde me passou felizmente, assim como a fase das veleidades intelectuais. As livrarias eram boas e dispunham de quase todos os autores estrangeiros e portugueses. Dos clássicos que li lembro-me que o Eça despertava em mim uma enorme curiosidade de conhecer Lisboa… Havia muito menos revistas. Eu lia as estrangeiras sobre o cinema, folheava as da moda e decifrava as charadas do Almanaque Bertrand…

6. Era difícil ser jovem nos anos 50? Quais as suas maiores ambições na época?
Não era difícil ser jovem nos anos 50, exceptuando a obrigação a que me referi de ter aulas no Verão e férias no Inverno. Tive uma juventude saudável, sem problemas que me marcassem profundamente. Era desportista e pratiquei várias modalidades, tais como vólei, básquete, natação e mais tarde equitação, esgrima e ralis de automóveis. Os amigos que me rodeavam eram muito semelhantes. As angústias simbolizadas por James Dean surgiram mais tarde. As ambições da época eram as de sempre: descobrir o mundo, com um deslumbramento antecipado.

7. Como era o relacionamento com as amigas? Era de cumplicidade, amigável ou de rivalidade?
Não havia rivalidades com as amigas a não ser no desporto. Em matéria de namorados não me lembro de alguma coincidência. Era um clima de muita saúde mental e eu soube sempre escolher os amigos.

8. E com o sexo oposto? A sua mãe deixava-a namorar à vontade ou, pelo contrário, havia entraves ao namoro?
Era óptimo e não me lembro de situações desagradáveis que não fossem os desgostos de amor, claro. Eu era bonita e tinha a minha corte mas nem por isso era muito namoradeira. Os meus pais tinham um comportamento convencional. Lembro-me que até bastante tarde só me deixavam sair à noite com o chaperon, que era habitualmente o meu irmão mais velho e com quem felizmente me dava lindamente.

9. Era possível a uma jovem de boas famílias empregar-se num escritório, ou em qualquer outro emprego? O que era admissível? Conte a sua experiência pessoal.
Os preconceitos contra o emprego não eram tão acentuados como em Portugal. Estranho para todos era de facto uma pessoa, em qualquer situação social, não se empregar depois dos estudos.

10. Quais eram os divertimentos possíveis para a jovem dos anos 50? Bailes, chás, a ida à praia? Baseie-se numa experiência pessoal.
A princípio os chás dançantes e as festas em casa uns dos outros. Mais tarde as boîtes. As formas de diversão eram as mesmas de agora mas com outras características. Não havia televisão, claro, mas Lourenço Marques não era mal servida de espectáculos. Além do que ia de Lisboa, como música erudita em concertos do velho Círculo de Cultura Musical, teatro, revista, fado, desporto, etc., tínhamos a África do Sul que com frequência nos «subalugava» os grandes espectáculos que contratava, tais como as operetas americanas de grande sucesso. Por essa razão até aconteciam estreias de grandes filmes antes de Lisboa. E havia a prata da casa, claro.
Fui sempre boémia e dormia pouco porque saía com muita frequência. Mais tarde em Paris continuei essa boémia numa vida dupla: de dia a sobriedade imposta pela limitação material de uma bolsa de estudo. De noite, as boîtes da moda, convidada pelos amigos. Como o New Jimmy’s era muito próximo da academia que eu frequentava cheguei a fazer uma directa… Por lá passavam e conheci alguns personagens do jet set da época, como o Onassis, a Callas, a Lolobrigida, o Porfirio Rubirosa, etc.

11. Ouvia falar, nesses anos, de «degenerados» como: alcoólicos, drogados, homossexuais, lésbicas, prostitutas, bordéis? Em que termos e o que pensava dessas pessoas na época?
O alcoolismo é milenário e Baco deixou cultores em todos os tempos e em toda a parte. Não se ouvia falar em drogados e a homossexualidade não se afirmava publicamente e não era muito referida. Bordéis e prostitutas, sim. Em Lourenço Marques a Rua Araújo era famosa pelos seus bordéis quase porta sim porta não.

12. O ritual do casamento, como se processava nesses anos?
O casamento era precedido de um namoro durante o qual se exigia uma contenção de práticas sexuais. Os homens e as suas famílias levavam em gosto a convicção de uma inexperiência por parte da mulher neste domínio. Na avaliação de um casamento pesavam os factores convencionais de virgindade, boas famílias, boa colocação.

13. Casava-se normalmente «virgem». Era tabu o contrário? Na sua opinião, porquê?
O contrário era de facto tabu e penso que a Igreja tem uma certa influência nesta formação. As coisas alteraram-se gradualmente e passou a generalizar se bastante uma experiência sexual antes do casamento, com menos preconceitos que pudessem diminuí lo.

14. Pela sua experiência pessoal como se relacionava a mulher com o marido sexualmente nos primeiros meses de casada? Sabia-se o que era o prazer no sentido físico do termo?
Se eventualmente não quiser responder a esta questão poderá referir casos de amigas que lhe confidenciassem segredos íntimos.
Nunca me casei embora tivesse corrido esse risco por três vezes… A pintura e o novo mundo que ela me criou e fez viver obcecadamente foram afastando esta hipótese. Embora não considere o casamento totalmente inconciliável com uma actividade artística, penso que, ou se é privilegiado por um casamento muito especial que permita respeitar todo o tempo que a criação exige ou se abdica de uma grande parte da disponibilidade mental e emocional necessária.
Da experiência dos outros deduzo que se calavam mais os grandes desentendimentos. E não eram habituais as grandes confidências.

15. Quais as expectativas de uma mulher jovem casada nos anos 50? Ter filhos, cuidar deles em casa? Ou antes possuir um emprego e harmonizar tudo isso com as tarefas domésticas? Os maridos ajudavam na lida doméstica?
A mulher em Lourenço Marques tinha a vida doméstica facilitada pelos criados, que, como se sabe, eram bastante disponíveis. Portanto, a expectativa depois do casamento era ter filhos e poder permitir-se ter um emprego. Por esta mesma razão e porque o machismo era mais acentuado, os maridos raramente se empenhavam nas tarefas domésticas.

16. Como sentia politicamente o Portugal salazarista da altura? Incomodava-a  ou nem dava por isso? Lia jornais?
A primeira reacção surgia no liceu, com a imposição dos períodos escolares. Mais tarde passávamos a ter consciência de uma enorme falta de autonomia. Os problemas locais eram grandemente resolvidos no Terreiro do Paço. E ninguém se pode esquecer que os portugueses, brancos ou não, que residiam em Moçambique chegaram a ser classificados oficialmente por Salazar, de portugueses de segunda.

17. Como mulher hoje, o que lhe ocorre dizer de mais importante sobre os anos 50 em Lisboa ao nível da educação feminina? E da mulher intelectual e/ou artista? Gostaria que se referisse à sua experiência pessoal.
A educação escolar não podia ir para além do liceu porque não tínhamos Universidade, nem uma Escola de Belas-Artes, nem um Conservatório. Eu estudei piano mas não pude fazer um curso. Mas havia animação intelectual e a mulher tinha estatuto de gente.
No entanto, tenho a impressão que poucas famílias ambicionavam para um filho ou uma filha a pintura, por exemplo, como meio de vida, numa fase em que o modernismo tentava afirmar se sem qualquer adesão por parte do grande público. Não era um futuro promissor, e temos que render homenagem aos pintores que persistiram desinteressadamente. Os meus pais aceitaram surpreendentemente que eu fosse para Paris sozinha. Os meus amigos entusiasmaram-se com aquela radical alteração da minha vida.
Não posso afirmar que tenha feito uma carreira sem dificuldades. Os primeiros tempos de Paris foram penosos, na medida em que passara de um ambiente cheio de mimo para uma cidade com gente inóspita, principalmente nos anos 60. Todo o mundo de inquietação, de pesquisa e de muito trabalho em que nós vivemos também não é fácil.
A exposição que mais marcou a minha carreira, embora já tivesse exposto anteriormente, foi a da Fundacão Gulbenkian, em 1973. Simultânea com a de Rodin, que atraiu milhares de pessoas. Como consequência desta vizinhança eu beneficiei de quinze mil visitantes e senti que o público me descobria.
Gostava de me referir ao facto de nunca ter sentido, como pintora, qualquer discriminação por ser mulher.

18. Que outros aspectos gostaria de referir sobre a sua vivência nesses anos?
As viagens não tinham ultrapassado a África do Sul e as Rodésias. Só em 1959 vim pela primeira vez à Europa. Desembarquei em Roma. Conheci várias cidades italianas viajando de automóvel com uns amigos. Passei por Paris e finalmente Portugal. A lembrança desta viagem foi um marco nos anos 50.
Fixei-me definitivamente em Lisboa onde gosto de viver. Tem uma dimensão humana que me agrada e uma luminosidade que é fonte de contínua provocação e inspiração.

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"Os quadros de Maluda são um hino, um louvor à vida, ou seja à construção do abrigo humano". Maria Helena Vieira da Silva