Os pintores do silêncio…

Fernando de Azevedo

Os pintores do silêncio são também os melhores intérpretes da musicalidade: a recusa interior à estridência, ao excesso, e o seu modo próprio de invocar a harmonia; o que, para não se perderem no afogamento banal da sentimentalidade, lhes exige uma procura laboriosa, racionalizada à beira da frieza, de uma ordem. Esta ordem permanece assim estruturalmente enquanto o visível se vai orga¬nizando como espectáculo, no silêncio e na sua harmonia. Penso na pintura de Maluda e em como ela me parece gerar se e perfazer se assim, entre uma rigorosa metodologia da medida e a entrega apaixonada às tentações visuais. Desde a Grécia, pelo menos, que a nossa cultura de ocidentais conhece e manobra os prazeres da disciplina que rege, esteticamente, aquela reunião difícil: a geometria.
As regras da harmonia, as regras do espaço organizado onde se contém o lugar de cada coisa e a sua medida na relação entre todas as coisas, onde as paixões obedecem como formas, não ao excesso em que raivosamente se deformam, mas ao equilíbrio em que melhor se aquietam, foram desde sempre procedimentos do desenho e da pintura que a geometria tutela. A arte de Maluda vem pelo amor do visível, do concreto, até à disciplina do abstracto, do estrutural geométrico que interior¬mente suporta a compreensão ordenada do visível. Nesta relação que não é nunca uma carpintaria recoberta de cenário, uma cidade é tanto apreensível pela sua geometria, quanto a geometria se pressente porque a cidade lhe dá carne e o sentido. São situações simultaneamente construídas, inteligíveis não em sucessão ou alternativa mas num tempo harmónico percorrível num olhar, ou convidando à disponibilidade do passeio interminável por linhas, pontos de fuga, planos coloridos que, identificados, serão ruas, horizontes azuis, telhados   rouge de venize, fachadas brancas, espessas  de cal. Uma paisagem de Maluda obedece tanto ao ritmo construtivo como à memorização visual e, no entanto, se fosse possível sobrepor o seu desenho à forma do real de onde parte, ver se ia como está, sem lhe ser infiel, para além dessa forma de ver o imediato, como estrutura numa grelha abstracta, complexa de linhas e de planos, uma grelha rítmica percorrida de oblíquas, de paralelas, de rimas na vertical e na horizontal, de planos ora próximos, ora longínquos. Os jogos de claro escuro, empenas, triangulação de telhados, tornam se as pausas necessárias ao encaminhar da luz pelas veredas geométricas.
Nessa pintura, não há vazios para a anedota dos tipismos, nem tão pouco há nela o improviso do pitoresco. Não se entra nela pela vénia afável das figuras, nem acena sequer à expressão. Não procuremos, assim, nelas a melancolia embora não se nos torne estranha alguma solidão. Não procuremos ver também a pura alegria porque, mesmo ao sol plano, à luz doirada, há sempre uma sombra da cor da terra que, pouco a pouco, se insinua. Lisboa, tem em Maluda um dos seus pintores eleitos. Outros houve como Botelho e Bernardo Marques que perceberam quer o seu demorado pitoresco, quer a graça; ou Vieira da Silva que a adoptou no enredo azulejado do seu espaço dramati¬camente moderno. Maluda, porém, foi quem viu que, em Lisboa, a luz age sobretudo em planos, a cidade se constrói plano a plano, e se encaminha por uma espécie de vértice perspectívico para o seu
u’ltimo écrã luminístico, o Tejo azul. Viu que, em Lisboa, há uma luz própria que nela se consome e expande, uma luminosidade magnífica, mas viu que essa luminosidade não é atmosférica. Cada coisa tem sempre o seu lugar e mantém a sua forma até que a luz se extinga. Por isso, a grelha construtiva que criou para irradiar e sustentar a pintura se acerta pela planificação da cor para distinguir as formas. E a razão porque o naturalismo que se julga haver, não existe na pintura desta artista; nenhuma distração interrompe aquilo que nela é, ou se poderia chamar de discurso clássico: a neces¬sidade de estilo e do prazer inteligente da ordem.
Esta estrutura ordenada torna se ideal para a clareza exigida pelas técnicas da impressão, parti¬cularmente a da serigrafia. Técnica absoluta da cor plana, muitas das imagens da pintura de Maluda passaram a ser interpretadas, e divulgadas também, nesse processo, posterior no ocidente pelo menos à gravura em metal e à litografia. Certamente por gosto da época e por ser dos que menos obrigam o artista ao esforço oficinal, este processo é dos mais utilizados hoje. Maluda tem criado imensas imagens identificadoras de Portugal, escolhendo paisagens, sítios, ajustados ou que a pintora ajusta à sua intuição geométrica e ao seu rigor construtivo, O Alentejo, como o Algarve aceitam tão igual e admiravelmente como Lisboa a paleta sóbria, mas luminosa e colorida na sua unidade ao mesmo tempo deliberada e sensível; descobrem se diferentes, entre ritmos semelhantes, silêncios também e inesperadas perspectivas. Por sua vez, entre a pintura e a serigrafia, Maluda permanece. Quase não há esforço de redução técnica, a imagem mantém o seu rigor de desenho e a pureza lírica transparece na justaposição planificada da cor. Só a seriação, por vezes, faz acontecer a evidência do processo.
As suas “janelas” por exemplo, onde a pormenorização é exaustiva e recreio guloso dos olhos, têm tido excelente tradução gráfica. As “janelas” de Maluda mais do que um tema são bem uma entrega sua à poética citadina do ornamento urbano, ornamento popular como um uso, neste caso, mas singular como uma descoberta. A entrega da pintora constitue um gosto amoroso de desvulgarização  do quotidiano. A janela é apenas um vão antes de ser investido na qualidade de função e de ornamento que resta no pano completo da fachada. Depois, torna se a moldura onde virão a recortar¬ se o espaço interior quando vista de fora, ou o espaço exterior, modulado em extensão, quando é usada pelo lado de dentro. A janela lisboeta, sobretudo, prolonga pela sua existência fora a nossa tradição “voyeuriste”, a tradição de uma cidade que se esconde e que se espreita. A mesma que a pintora lhe reconhece ao surpreendê la, reflectindo entre rideaux preciosos e antigos, entreabertos sobre as portadas, uma vida exterior passageira e silenciosa. Maluda descobre num elemento arquitectónico  que tem por destino o repetir se, o que o isola e individualiza, mas fá lo sem recurso, nesse ensaio de personalização, à anedota, ao capricho, ao que possa comprometer a limpidez, o essencial do desenho, o seu comportamento arquitectónico na fachada da casa, no decorrer da rua. A atenção da artista e uma perscrutação de vida, um enunciado de vida numa espécie de pequeno palco vertical semi cerrado; entre dois espaços de existência de que a janela é o plano para a trans¬parência e para a opacidade. Tudo está descrito, outro rigor não poderá ser maior do que aquele que faz: belos azulejos emoldurando lindíssimos ferros de sacada, verdes e delicadas persianas de ruas antigas, guarnições, linteis, tudo. Tudo está descrito. E mais a luz. A luz que organiza o dentro e o fora, para lá e para cá da vidraça; a bandeira que ainda espelha a nesga de azul do rio e a outra margem, o amarelo familiar do carro eléctrico que se dobra passando nas cortinas; a complexidade dos espaços sobrepostos em que a intimidade se iguala, subitamente, à rua, numa imagem de espaço contínuo, único, infinitamente múltiplo, versátil e humano. Cidade toda feita de janelas… onde cada janela dá e mente/o retrato que lá pôs a toda a gente, como no poema que Alexandre O’Neill dedicou às janelas de Maluda e me apetece citar aqui, porque ninguém disse melhor do que o poeta o que pintora então havia feito.
Maluda tem aceite responder também a proposições de outros temas na sua obra gráfica. Parti¬cularmente aquelas que os C.T.T a convidaram a realizar destinadas à criação de selos. A pintora soube tratar esses temas com uma singularidade objectual que os tornou, depois do necessário envolvimento  gráfico e funcional, belas imagens do mundo filatélico, esse mundo especialíssimo, ao mesmo tempo da mais ampla trajectória universal e do maior secretismo coleccionista, tanto de moeda viajeira e hábito de desatenção quotidiana, como de avaliação histórica, estética e museográfica. Escola do gosto, não tem sido nada pequena, sabe se, a contribuição portuguesa para que este gosto persista, continue a valorizar se constantemente e seja um meio sensibilizador na convivência planetária. As séries, “Quiosques” e “Farois” de Maluda, são recentes, respectivamente de 85 e de 87 e conjugam lindamente o inventário com a pedagogia patrimonial: O seu possível insólito, como mobiliário urbano, torna se desejável, através da nitidez, do preciosismo da redução lúdica, na pri¬meira série, e na estranheza da dimensão onírica de solidão oceânica dos objectos da segunda. Num e noutro caso, do pequeno selo, no objecto real há um caminho de olhar e um tempo de ver. Como costuma ser habitual com a arte verdadeira que existe para mostrar o que depois se ama. Poderia dizer se o mesmo da arte de Maluda.

Setembro de 1988
Texto incluído no catálogo da exposição “Maluda, Obra Gravada” (Forum Picoas, Lisboa, Janeiro de 1989), editado pelo GIACICA – Gabinete de Imagem e Acção Cultural Institucional do Conselho de Administração dos Correios e Telecomunicações de Portugal

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"Os quadros de Maluda são um hino, um louvor à vida, ou seja à construção do abrigo humano". Maria Helena Vieira da Silva