Um outro olhar sobre Portugal

(…) Maluda revela a face levantina da cidade de Lisboa; os brancos tornam-se levantinos, o Atlântico recebe um azul mediterrânico. Nós somos, de repente, uma raça do Mediterrâneo, pronta a subir aos terraços das casas, num sublime abandono ao destino, deixando que as Tágides falem da vida alheia para nós ouvirmos.

Maluda não experimenta os rosas de Lisboa, as suas cores pombalinas, os quiosques, os palácios, os crepúsculos, os faróis, os cascos dos navios. A pintora traz a África na paleta, como Eros traz a Grécia na Aljava. O Tejo é um lago aberto, com marés, como o Tchad. Será Oran o que vemos ou os telhados de uma Lisboa bronzeada e quente? O que inspira Maluda é essa descoberta Africana, quer seja num monte alentejano, savana imensa, com a missão ao fundo, quer seja a cidade de Faro, rente ao mar onde se pode ver deslizar uma piroga e onde falta quase um penacho de coqueiro real. Uma alma não se enterra, ela desponta sempre na flauta de um pastor ou na mão de um pintor de horas, como Maluda.

Agustina Bessa-Luís
“Um Outro Olhar Sobre Portugal”, Edições Asa, Porto, 1998

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"Os quadros de Maluda são um hino, um louvor à vida, ou seja à construção do abrigo humano". Maria Helena Vieira da Silva